terça-feira, 26 de agosto de 2014

"Sim, o rio sabe"


Um dia ali foi caminho de barco. Água que passava correndo trazendo e levando notícias, deixando sentimentos. Um dia ali foi morada de peixe grande, que tornava ainda mais rica a vida de quem dele se alimentava.

Rio que em suas curvas desenhou estradas, encorajou o homem a fincar raízes, mostrou que viver era serpentear a sua liberdade por entre obstáculos e se lançar de peito aberto sobre o mar. Sempre corrente, vivo, soberano. Esse tempo não é distante, mas pode tornar-se apenas lembrança, cantada pela saudade e pela realidade que abate dia a dia o Velho Chico.

Há menos de um ano, o ponto mostrado pela fotografia acima era ancoradouro das barcas que fazem a travessia Juazeiro-Petrolina, hoje tomado pelas baronesas que se espalham rio a fora, sufocando, indicando que a sujeira humana aos poucos mata o que se tem de mais precioso.

Há cerca de cinco anos, o local onde se deu a tentativa de construção de uma estrutura para ancoragem das embarcações era coberto pela água, que, com as chuvas chegava a beirar a orla das cidades. Hoje, o volume do rio baixa diariamente, apequenando as possibilidades, apagando-se paradoxalmente para alimentar a energia elétrica.

O rio, em alguns lugares, já não canta. Explorado para além de sua capacidade, resiste, minguado, choroso, clamando para que o salvem de sua morte anunciada.     

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E se fosse seu último dia? (Final)

Dei conta de mim depois de sabe-se lá quanto tempo. Não fazia mais sentido algum contá-lo. Algum dia fez? Pensei, pensei. Percebi o quanto era maniado em quantificar as coisas. Calorias, distâncias, inteligência, força, relações, desejos, vontades, amor, ódio, saudade. E o tanto que deixava de ver da vida enquanto colocava em números o que muitas vezes só é necessário sentir. E o tanto de humanidade que se perde em atos que vão se tornando mecânicos, mensuráveis.

Lembrei de certo dia quando voltava para casa. Sentado à espera do ônibus, vi pessoas caminhando. Pareciam ir a lugar algum, hipnotizadas pela pressa do dia que vai se acabando e ainda falta muito a fazer. Vi pessoas passando nas janelinhas dos coletivos. Olhares congelados, mirando o nada, sem brilho. O entardecer tentava chamar atenção, por entre os prédios da cidade. O céu mudando lentamente de cor e eu esperava o ônibus sem pensar. Assim como milhares de pessoas, que depois se espremeriam no espaço mínimo, cansadas do trabalho de dia inteiro, rezando para o motorista não parar no próximo ponto e abarrotar ainda mais de gente o momento que parecia eterno. Depois todos desceriam onde tinham que descer e seguiriam para fazer o que tinham de fazer.  

Vi que não somente eu poderia fazer do último dia o melhor dos dias. Vi que uma porção de gente não hesitaria diante da pergunta “você gostaria de mudar algo em sua vida?”. E mesmo assim permanece. Tive uma pequena ideia da multidão que diariamente reprime seus sonhos em nome de uma vida pragmática demais, burocrática demais, estática demais. Pessoas que deixam de ouvir a si mesmo, de ver além do que sempre é dito pra ser visto, que ignoram suas fantasias, por mais tolas que elas sejam, ou que aparentem ser. Pessoas que têm medo de transpor a ordem, de fazer diferente e que, ao se depararem com alguém com o pé fora do caminho, fazem de tudo para que as coisas voltem a ser como antes, para que não se perca as rédeas. Quem dita a ordem? Por que esta deve ser a ordem?

Nos primeiros momentos nos quais entendi que não poderia mais fazer nada para mudar meu destino, imutabilidade dada em vida pela minha inércia e já definitiva pela morte repentina, desejei ter feito diferente, lamentei pelos que ainda podem e não o fazem. Aqui, onde deixo de existir para tanta gente, sigo com as lembranças do que não fiz e do que poderia ter sido. Uma lição que aprendi tarde demais. 

E se fosse seu último dia (Parte I)

terça-feira, 29 de julho de 2014

"O que sente?"

Quem já não se deparou com os mal-estares da alma? E quem já não procurou ajuda para saná-los? Aquele homem não era só mais um, era alguém que precisava desabafar o que tanto lhe incomodava por dias a fio.

Interior de uma cidadezinha pequena já no nome. Seguiu as ruas de terra na esperança de o médico tirar-lhe as dúvidas. Espera impaciente pelo encontro que talvez mudasse a vida, passava o tempo lentamente contando as horas pelo sol que ficava cada vez mais alto.

“O senhor, por favor, venha por aqui”. Encontrava-se, depois de sabe lá quanto tempo, com a resposta para as suas perguntas mais viscerais.   

“O que sente?”, perguntou o médico, em seu ofício cotidiano de entrevistador.  

“Ó, doutor. É uma alegria que sobe e quando chega na cabeça só me vem o tempo de menino. E isso só acontece quando tem lua cheia, desde que um piolho de cobra picou meu dedão do pé”.

E o silêncio pairou pelo consultório, um ar risível no ambiente. E nada que a medicina mais moderna pudesse explicar, nada que os estudiosos mais renomados pudessem dizer.

“Se é alegria, melhor não mexer”, concluiu o médico no alto de sua sapiência. E o rapaz saiu de lá, satisfeito por seu problema ser o que tanta gente procura. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O que foi...


Era apenas um corredor por onde passavam fantasmas,
por onde caminhavam as lembranças,
depois de adormecidas as saudades.
Eram as janelas entristecidas
por terem os olhos fechados para o tempo que veio,
com tons e cores que sequer foram vistos.
Eram os móveis empoeirados,
carregados de histórias não mais contadas,
ignorados em seus defeitos nunca reparados,
acumulando pela simples função de acumular.
Eram as portas fechadas para o mundo.
Era o mundo fechado em si mesmo.
Era a água interrompida,
a luz acostumada à escuridão.
Era o jardim somente um punhado de terra seca,
eram as paredes reflexos da solidão.
Era o entardecer febril,
de passos trôpegos pelo vazio.
Era o silêncio, apenas.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Não precisa dizer nada

Não precisa dizer nada, apenas ouvir. Tem tanta gente disposta a falar, procurando uma brecha no tempo alheio para colocar pra fora sua história. Pode ser apenas mais uma, mas é a vida de alguém. Por mais que não pareça, única.

Ela chegou discreta em meio ao vai e vem de pessoas que se amontoavam na agência bancária, indiferentes a tanto além do passar do tempo. Alta, magra, olhos pesados, mãos querendo falar. Olhou em volta rapidamente, sentou-se ao meu lado, a existência parecendo desafiar a vida.

- Não tem dinheiro nos caixas lá fora. – As mãos falavam esperando atenção. Assenti com a cabeça, tirei o fone do ouvido, o gesto que talvez esperasse.

- Ia tirar um dinheiro porque me enganaram. – Eu apenas ouvia, olhar fixo na transparência da córnea amarelada. Sobre a bolsa a senha que indicava atendimento prioritário.

- Estou com um tumor na cabeça, o médico me disse ontem. Vou ter que operar, mas preciso tomar um remédio antes. Custa setecentos reais. Vim tirar os mil que tenho na poupança.
A senhora, talvez nem tão senhora assim, parecia humilde. Se comportava com uma fragilidade de quem vai quebrar a qualquer momento.

- Tem três anos que eu sinto isso, mas o médico me dizia que era coisa da minha cabeça. Não uma coisa que existia dentro dela, mas uma coisa que ela criava. Fiquei esse tempo todo tomando remédios que acho que nunca deveria ter tomado.

Apesar de toda complacência nas palavras, tinha raiva na voz. E uma sobriedade tão forte, que parecia a impedir de sorrir. Ela não sorriu.

- Esses dias passei mal. Fui levar minha filha na UPA pra fazer um exame e desmaiei lá. Acho que foi porque comi muito pão com queijo cremoso. Por mim eu só comeria pão com queijo cremoso. (pausa longa) Eu disse ao médico que ele ia pagar pelo erro dele, disse que ia processar, porque o tumor tá grande e ele não tinha visto isso. Aí ele me disse pra levar a nota do remédio, acho que vai me reembolsar. Minha mãe me perguntou se eu não tinha medo dele me matar na mesa de cirurgia. E eu respondi, mãe, eu já estou morta.

A campainha soou. P34, era a sua senha. Pegou os mil reais, me mostrou que havia conseguido sacar e foi embora. Pela primeira vez sorriu, de canto, desajeitado como quem não tem costume. Talvez pensando no pão com queijo cremoso, felicidade de instante. Não, ela não estava morta. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

E se fosse seu último dia? (Parte I)

O que você faria se hoje fosse seu último dia de vida? Talvez não fosse a melhor maneira de relacionar-se com o mundo, sabendo que no dia seguinte você não fará mais parte dele, a não ser como pó, lembranças e, em alguns casos, saudades. Eu não sabia que ontem era meu último dia.

Acordei cedo, mais do que normalmente o fazia. Acho que a vida quis dispor a mim mais alguns minutos para que pudesse vê-la, mas não foi isso que eu entendi. Na verdade senti raiva, queria continuar dormindo, ainda me sentia cansado. Mas não consegui mais.

Levantei mal-humorado, fui ao banheiro, lavei o rosto. “Cara feia”, pensei olhando para o espelho. Poderia ter sorrido naquele momento, diante de um pensamento tão tosco e de uma imagem idem. Mas não sorri, do que me arrependo. Foi um sorriso a menos em minha vida. Segui levando no rosto um semblante pseudo-austero, rabugento, quase infeliz. Fui tomar café. Quando se pensa em morte e sabe-se que antes dela haverá um último momento, imagina-se que tudo nesse último momento será da melhor forma possível. Como em uma despedida de solteiro. Comigo não era diferente. Imaginei que minha última refeição matinal seria como naqueles filmes em que se baba frente à tv e que, em certos momentos, você jura poder sentir o gosto das iguarias. Tudo que achei foi um saco de pães dormidos. Poderia ter ido à padaria e comprar pães novos, ou ainda aqueles biscoitos refinados que há tempos paquerava no balcão, mas que, devido ao preço, nunca tive coragem de comprar. Eles pareciam muito bons de fato, mas não tive como constatar isso. Contentei-me com os pães duros e secos. Abri a geladeira e o que vi foi uma caixa de leite aberta, meia dúzia de laranjas já quase apodrecidas e água. Poderia ter feito um suco. Fiquei com preguiça e acabei comendo só aquilo que um dia tinha sido um pão.

Andei pela casa ainda sustentando no rosto a raiva de ter acordado cedo. Sentia-me o próprio Casmurro. Sentei na poltrona, fiquei horas sem fazer nada. Não percebi como estava o céu, se chovia ou se brilhava aquele sol costumeiro. Não senti cheiro algum, não ouvi música, não falei com ninguém. Acho que sequer pensei. Me anulei por um instante, mal sabendo que em poucos instantes estaria anulado para sempre.

Quando resolvi levantar e dar algum rumo àquele bendito dia, o relógio já marcava 10:37. Fui ao banheiro novamente, tomei um banho apressado. Pressa para que? Sentia-me importante quando tomava banho rápido. Parece que todas as pessoas importantes, que têm reuniões de negócios com outras pessoas que carregam maletas e por isso também são importantes, tomam banho rápido para chegar ao destino no horário. Eu não era importante, não tinha uma maleta nem horário marcado para reunião de negócios. Mas imaginava que um dia teria tudo isso e já ia treinando.

Saí do banho, vesti a roupa que vestia quase todos os dias. Uma calça jeans, a camisa amarela com um desenho que nunca entendi o que era na frente. Já estava até meio desbotada. Vi minha camisa nova balançando no cabide. Não cheguei a usá-la. Estava esperando uma ocasião especial, mas acho que esperei demais. Abri a porta resmungando porque ela emitia um ruído insuportável, um rangido que era quase uma canção brega. Poderia ter resolvido com um algodão banhado a óleo de cozinha. Mas acho que preferia perder meu tempo reclamando toda vez que a abrisse.

Andei pelas calçadas empunhando minha maleta imaginária, olhando para as pessoas com meu ar de superioridade que me afastava de uma grande maioria. Me sentia melhor do que os outros, por que haveria de esconder isso? Sou bonito e um dia serei um empresário de sucesso, era o que pensava quando via aquele povo feio que tinha a honra de dividir a calçada comigo. Quanta pretensão tola! Hoje sou pó, lembranças e nem sei se saudades. E eles continuam andando pela calçada, agora honrados sem a minha presença estúpida e prepotente.

O destino era a universidade. Cursava o sétimo período de administração de empresas. Queria fazer economia também, mas o tempo passou e eu não tive mais tempo. As aulas começavam 9h, mas geralmente eu chegava às 11h ou 11h30 dependendo da aula do dia. Achava que sabia de tudo, que o conhecimento que me vendiam por um preço altíssimo era desnecessário frente ao meu dom. E por que continuava? Vontade de aparecer e exibir o diploma na sala da presidência de minha empresa. Nunca sequer vendi uma bala. 

Cheguei, entrei na sala, sentei na última cadeira da segunda fila da esquerda para direita, como fazia todos os dias. Quando se acostuma a uma coisa é difícil mudar. Dá sempre a sensação de que tudo vai passar a dar errado. Era exatamente como acontecia com o tal lugar. Nunca ousei mudar. As horas passavam lentas e eu me agoniava com aquele murmúrio que vinha do professor. Ás vezes eles riam e eu nunca ouvia a piada. Sabia que não haveria graça.

Tinha alguns amigos naquela faculdade. Uns caras que estudavam comigo, uns de outros períodos ou de outros cursos. Não tinha namorada, mas já havia ficado com quase todas as meninas dali. Nunca dei valor a nenhuma delas, porque as achava fáceis demais, interesseiras demais, arrogantes demais. Talvez se espelhassem em mim. Morri sem conhecer o amor.

A aula ia até às 13h e eu esperava o momento de registrar minha presença para ir embora. Naquele dia, quando saí era 12:46. Fui para o restaurante da faculdade, comi o de sempre, um punhado de arroz, macarrão, batata frita, frango e uma coca-cola com gelo e limão. Não foi digno de último almoço, mas estava realmente saboroso. Só faltou a sobremesa. Voltei para casa e dormi a tarde inteira. Poderia ter ido ver o mar, ou mesmo ter aproveitado alguns instantes a mais ao lado de meus amigos. Poderia ter rido a tarde inteira de besteiras que nos fazem momentaneamente felizes. Poderia ter ligado para meus pais e ter dito o quanto os amava e o quanto me fazia falta tê-los por perto. Mas ao invés disso recolhi a minha insignificância numa cama. Dormi pesado, sem sonhos.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A bordo - relatos de uma viajante em início de estrada (Parte II)

Foto: Inês Guimarães

Durante o tempo em que não vivi novas experiências aéreas, muita coisa aconteceu em meu mundo por demais fixado nas superfícies. Dias de angústia por problemas que não sabia sequer identificar. Um pânico que varria as boas sensações e me dava a certeza de morte precoce.

A leitura, por vezes deixada de lado, voltava a ser a companheira que jamais deveria ter abandonado. E em uma dessas incursões pelas palavras alheias, uma reportagem me surgia com uma mensagem difícil de ignorar, impossível de esquecer. A história de dona Ailce, contada de forma magistral por uma jornalista, para mim, até então, pouco conhecida.

De curiosidade à admiração, a história de vida através do texto de Eliane Brum me fazia ver o quanto eu estava perdendo tempo. O quanto deixava o “depois” adiar planos, que se acumulavam dia após dia para um futuro que nem ao menos se sabe se vai acontecer. Considerações até óbvias demais, mas que fazemos questão de ignorar e fingir a plenitude quase impossível de existir.

Entre a minha história e a vida de Ailce, que, em sua aposentaria, finalmente ganharia asas, e terminou descobrindo um câncer que a levaria ao fim, existia um abismo. Eu, ainda com 27 anos, sem filhos, talvez ainda com tempo de descobrir, inventar, arriscar, tentar, errar, se arrepender, percebia que era hora de sair da inércia e enfrentar os medos, por maiores que eles fossem (e insistam em ser até hoje), uma luta diária contra mim, por mim. Li e reli a reportagem, com lágrimas nos olhos, o coração palpitando forte.

Meses antes, uma professora amiga, que havia se mudado para o Rio de Janeiro para o doutorado, convidava para passar um feriado por lá. Nunca havia saído do Nordeste. Tinha medo de distâncias. Imaginar os quilômetros que se desenhavam no mapa imaginário já me desencorajavam. Assim como uma série de outras questões que não convém serem ditas no momento.

No ímpeto, minimizei a página com a reportagem e fui para o site de uma companhia aérea. Salvador-Rio de Janeiro, 30 de maio de 2013. Ninguém tinha ideia do que entrar naquele avião significaria para mim.