terça-feira, 16 de junho de 2020

Precisamos falar






Não costumo falar muito. De mim, em especial, vou guardando coisas até não caber mais. O silêncio se acumula até transbordar, fazendo doer as costas, fazendo pesar o mundo. Engolimos o desaforo, os abusos, as dores e chega um momento em que precisamos nos perguntar: para onde está indo tudo isso?

Há alguns anos passei por momentos muito difíceis, porque tudo isso se transformou em algo maior. Coração acelerado, o corpo trêmulo sem conseguir controlar. Tinha medo, muito medo, de tudo. Tinha medo de morrer e várias vezes fui parar na emergência do hospital porque tinha certeza de que estava tendo um ataque cardíaco. Tinha certeza que morria naquele instante. Sentia frio, vontade de chorar e não entendia quando faziam exames e exames e me diziam: está tudo bem.

Como estava tudo bem? Claro que não estava! Procurei ajuda e ouvi o diagnóstico apressado de um médico que me rotulava. Apressado mesmo, sequer cinco minutos de avaliação e ganhei um rótulo. Essa mesma pressa que nos faz engasgar no dia a dia, que nos faz acreditar que estamos em uma corrida contra o tempo, contra as estatísticas, contra nós mesmos, contra a vida. Corremos tanto… pra que? Pra onde?

Passei muito tempo vivendo esse medo constante. Sentia medo de sentir o medo que me paralisava ou me fazia correr pro hospital na certeza da morte. Mas tive ao meu lado mãos que me seguravam, que me impediam de cair de vez, que me davam força pra acreditar que o medo ia embora. Ele sempre ia. Tive essa sorte, muitas pessoas não têm. Muitas pessoas até têm, mas mesmo assim não conseguem.

Tentei fugir dos rótulos, das dores engavetadas, do torpor do remédio que fazia sumir as sensações ruins e as boas também. Tentei acreditar que somos muito mais que compartimentos, onde cada lugar é para uma coisa. Não é assim. Não é pra ser assim. E quando eu consegui respirar sem tanto peso, sem tanta culpa, sem tanta cobrança, prometi a mim mesma que falaria sobre isso, que tentaria dar a mão a outras pessoas para que elas não passassem o que eu passei.

Mas eu nunca consegui fazer isso. Poucas pessoas sabem realmente o que eu passei. Em algumas situações consegui ver olhares desesperados, como que pedisse ajuda. E tudo que consegui foi dizer que tudo ficaria bem, que não valia a pena aquela dor que cultivamos sem nem nos dar conta. Às vezes é tudo o que queremos ouvir, que alguém realmente se importa, sem qualquer juízo de valor.

Resolvi escrever sobre isso por causa do momento em que estamos passando. Pelas incertezas que se tornaram crescentes, pelos discursos que tenho ouvido de que se você não faz é porque não quer. Se você não chega é porque não é capaz. Se você não vence é porque é fraco. Esse discurso é perverso, é a mesma ideia apressada que quer rotular e nos colocar nas caixinhas.

Precisamos falar mais sobre nós, como nos sentimos. Isso não é tabu, não é errado, é necessário. Precisamos nos escutar. Precisamos enxergar o outro e estender a mão.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Memórias



Vinte e nove de abril de 2020. Lá se vão 44 dias de distanciamento social, sem previsões para retorno à dita normalidade. Hoje, acordei sem saber ao certo que dia era, confusa no passar lento e ao mesmo tempo apressado e repetido das horas.

Eu sigo em casa, encontrando memórias que jaziam escondidas em lugares que nem sabia mais poder alcançar. Parte de nós é o que trazemos na memória. Somos as experiências que acumulamos, as relações, os momentos, as sensações e a maneira que nos lembramos e nos relacionamos com tudo isso. E muitas vezes nem nos damos conta do quanto carregamos. Mas de repente, no olhar despretensioso para o café fumegante na mesa, para uma rachadura na parede da casa, o escutar atento a uma palavra inusual, eis que ela está lá, a memória.

Hoje eu queria ver o rio. Deixar o pensamento, as memórias, os medos, a ansiedade seguirem o fluxo corredio das águas e se perderem pra não sei onde. Queria sentar ao lado do senhorzinho pescador de todo fim de tarde e assistir ao céu mudando de cor lentamente, do azul forte aos tons de rosa, laranja, amarelo, uma aquarela, até escurecer por completo.

Queria ver os passarinhos chegando pra dormir no concreto frio da ponte, barulhentos, algazarreando pertinho da água doce do rio, enquanto as pessoas passam apressadas preocupadas com a estética ou a saúde. Assim foi em tantos dias e não é mais há quase dois meses. Eu sinto tanta falta. E na falta vêm as memórias, insistentes, ocupando espaços.

Mais do que alcançá-las, reconhecê-las como parte de você, o mais difícil é ter que lidar com elas. Reviver situações que ainda perturbam de alguma maneira e perceber que no dia a dia não paramos tempo suficiente para nos dar conta disso. Não paramos o suficiente para nos perceber, nos ouvir e ouvir o tanto de vozes que falam por dentro, que gritam silenciosas. E se descobrindo, se redescobrindo, você deseja novamente se perder.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Tempo, tempo...




Vinte e sete de março de 2020. Estou há onze dias em casa, em distanciamento social. Eu, de tantas exclamações, vou preenchendo meus dias com reticências, pensando mais uma vez na relatividade do tempo, tempo como cura, como remédio, como tormento.

Quem nunca quis voltar ou acelerar o tempo? Congelar um momento, reviver um abraço, escutar novamente algumas palavras ou ver expressões que, inevitavelmente, vão sendo apagadas com o passar dos dias? Ou ainda pedir que os minutos passem apressadamente e levem consigo sensações ruins, situações que não gostamos de passar, lembranças que não gostamos de ter?

Eu hoje amanheci triste. Estou em casa, tenho conforto, trabalho, renda, minha família está bem, meus amigos estão bem. Soa tão egoísta. Mas é uma angústia que nos desafia. Hoje queria poder alterar a velocidade do tempo. Como naqueles dias bons em que ele passou corrido, como que fugisse de nossas mãos, desafiando nossas percepções. Queria poder transpor os minutos através das palavras e dizer: está tudo bem.

Hoje eu só queria ter o tempo nas mãos, poder alterar essa dimensão e a sensação que os segundos arrastados e a repetição dos dias causam. Dia após dia, notícias, dúvidas, perguntas sem respostas e a vontade de que o tempo avance, que acordemos do sonho ruim.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Ida ao supermercado




Vinte de março de 2020. Pelos últimos dois dias protelei, mas saí de casa. Desconfiada, coração angustiado. A sensação era uma só: medo.

No supermercado, controle de entrada de pessoas para evitar aglomerações. Senhoras mascaradas empurravam o carrinho lotado. O olhar era de apreensão, olhar de canto de olho. Os movimentos eram de apreensão. Todos evitando uns aos outros. Apesar de saudável, me senti ameaça. E também ameaçada.

Lavar as mãos, álcool gel, lavar as mãos, álcool gel. Assim saí de um mercado para outro menor, onde encontrei uma pessoa querida, que me disse ainda não ter beijado a filha depois que ela voltou de viagem. Pela primeira vez senti vontade de chorar. Estamos, de fato, em um momento de privações.

Nesses dias tenho lembrado muito de minha mãe. Lá no início da década de 1990, um surto de cólera explodiu no Brasil. Minha mãe, educadora e assistente social, levava informações para crianças em escolas, inclusive na que eu estudava. Vi diversas vezes ela explicando que poderíamos evitar a doença com gestos bem simples, como lavar as mãos e os alimentos que fôssemos consumir.

Nunca esqueci. Impressionada, como sempre fui, fazia várias vezes o teste da pele que ajudava a identificar uma pessoa com cólera. Como o doente perde muita água, a pele fica sem a elasticidade natural. Minha preocupação não tinha qualquer sentido, mas existia pelo medo. Mesmo assim, não me lembro de perceber tanto medo como consigo ver hoje nos olhos das pessoas.

Tenho percebido pessoas abaladas psicologicamente e isso me preocupa bastante, tanto quanto o aumento da pandemia. Estamos vivenciando uma situação em que não sabemos muito bem o que fazer nem tampouco o que será no futuro. Não conseguimos lidar com prazos. Não temos respostas e as certezas são poucas. Eu fiz uma escolha para esses dias em que me isolo socialmente: tentar manter tanto minha saúde física quanto a saúde mental. Não me alienar, mas evitar os excessos. E me colocar à disposição de quem não está conseguindo, seja para conversar sobre o assunto, ou desviar o foco, falar amenidades, sugerir músicas e filmes, o que seja. Sou toda ouvidos.

Vejo muita gente questionando nas redes sociais o que as pessoas mais gostariam de fazer quando terminar o isolamento social. Eu só quero poder sair sem sentir esse medo tão palpável que vivenciei quando fui ao supermercado. Quero poder estar entre pessoas que amo, sem me sentir um perigo.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Normalidade




Dezenove de março de 2020. Há três dias estou em casa. Não que isso seja um sacrifício para mim, mas a situação que nos obriga a ficar isolados socialmente é perturbadora. Não sabemos até quando tudo estará fora da normalidade.

Estou em casa. Durante toda a manhã e início da tarde sozinha, em silêncio. E o silêncio me faz pensar demais, me faz por vezes girar em meu próprio eixo ainda sem compreender muito bem o que está acontecendo e o que está por vir. A preocupação e o medo são inevitáveis. Mas penso ainda na tal normalidade, que também é cruel, que aprisiona, que restringe e segrega, que muitas vezes nem sentido tem. Que talvez precisemos do medo para perceber o quanto ainda somos indivíduo, quando deveríamos ser o todo. O todo é engrenagem, não funciona com peças soltas.

Eis que um vírus bate a nossa porta e grita: ei, olha isso, o que o seu vizinho faz pode te atingir diretamente. Mas sempre não foi assim? Ignoramos o todo. Pensamos no nosso círculo de afinidades e, se está tudo bem por aqui, segue a vida, normalmente.

Ligo a TV, programação normal suspensa, o vírus é o assunto. O moço de paletó diz que depois do fim da pandemia não haverá mais a ordem que existia anteriormente. Em outras palavras, a normalidade pode ganhar outro sentido. E qual o sentido podemos dar? Qual o sentido queremos dar? Sigo pensando em meu autoconfinamento, quebrado vez ou outra pela vibração do celular, que me lembra que nem estou tão sozinha assim, torcendo que consigamos tirar coisas boas do caos, que a desordem reordene um pouco o mundo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Sobre conversas e saudades



“A gente tem que se motivar e procurar outros sentidos (pra vida). Não pode abdicar. Por mais difícil que seja, buscar uma compreensão”.

Eu escrevi o trecho acima, é parte de uma conversa com alguém que hoje é lembrança e saudade. Na ocasião, lá pelos idos de 2012, falávamos de perda, de vida e sobre continuar. Costumávamos conversar pelo bate-papo do Facebook, distantes dos olhares e ouvidos alheios, por muitas vezes diminuindo minhas tardes quase intermináveis no trabalho. E falávamos sobre tudo, sobre futebol, família, distâncias. Conversas longas, ou às vezes somente um “Inaises” perdido no meio do dia, como se dissesse: “estou por aqui”.

Eu era dez anos mais nova que ele. Diferença que pode parecer enorme quando se é apenas uma criança. Eu pirralha, ele já frequentando a universidade. Mas, curiosamente, quando chegavam as férias e eu ia para Salvador, era com ele que eu gostava de ficar. O primo que sorria, inventava e fazia de qualquer coisa brincadeira. Eu, pouca idade, lembro de caminhar pelos corredores de Engenharia da UFBA feito gente grande, sob seu olhar atento. Assisti a aula, fiz questionários e ele sempre a sorrir.

Tinha nove ou dez anos quando minha mãe me pediu para escolher um padrinho. A única que teria o direito a escolha, sejam lá quais fossem as razões. Sei que não pensei muito naquele momento. “O Marcus”, respondi. Por tudo o que significava, pela companhia, pela atenção e cuidado que tinha comigo. Não tive dúvidas.

Da infância restou muito. Os passeios intermináveis, as idas ao Barradão, os filmes que fazíamos, as cantorias, as brincadeiras que por muitas vezes adentravam as madrugadas. Um carinho que cresceu comigo, resistente às idas e vindas do dia a dia que nem sempre unem. Que só crescia nas longas ou rápidas conversas de internet, ou nos papos certos que tínhamos sempre que eu ia lá.

Hoje o Marcus não está mais aqui. Há pouco mais de dois meses deixei Salvador com uma incredulidade que ainda não passou. Com sentimentos atravessando a garganta. Buscando confiar no tempo para dissolver as dores e alimentar as boas lembranças, sejam minhas ou de toda família.

E somente hoje consegui colocar esses sentimentos em palavras, ao relembrar nossas conversas e o que ele me respondeu lá pelos idos de 2012, quando falávamos de perda, de vida e sobre continuar. “Para mim o certo é viver a vida intensamente. Aproveitar com responsabilidade, dizer eu te amo para as pessoas sem ter vergonha. Valorizar a convivência com aqueles que amamos, porque deixar pra depois pode ser tarde demais”.

Ele estava certo. Temos que viver e aproveitar o amor cultivado. Lembrar com saudade sua presença, seu sorriso, a maneira como conseguia cativar a todos. E agradecer por ter tido essa oportunidade. Luz e o meu carinho eterno, Marcus!  

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Para você, com carinho

Não tinha uma vez que eu fosse em Salvador que não passasse por lá. Aquele sem fim de livros que iam se amontoando em um espaço tão pequeno me transportava para um mundo onde os limites eram impalpáveis. Era o Cantinho do Sebo, dois corredores bem estreitos e curtos, abarrotados por obras dos mais diversos gêneros, das mais diferentes origens. E ali, me esbarrando entre um e outro livro, impregnando o nariz com a poeira insistente, me prendia às histórias contidas em breves dedicatórias.

Elas eram muitas e isso sempre me fascinou pelo fato de que era um pouco daquelas pessoas desconhecidas exposto em prateleiras, talvez junto de seus autores preferidos, talvez na contracapa de um livro nunca lido. Imaginava como teriam ido parar justamente ali, no cantinho que era meu ponto preferido em todas as férias, que caminhos teriam percorrido até estarem ao alcance de minhas mãos.

Há anos não vou no Cantinho, mas o encanto por livros e dedicatórias continua inabalável. Hoje, em um hábito quase diário, percorro sebos virtuais. Já não há a poeira insistente, ou as muralhas de livros empilhados magicamente, desafiando a gravidade. Nem tampouco as dedicatórias e os sentimentos sempre contidos nelas. A não ser que...

Qual não foi a minha surpresa quando abri o pequeno pacote vindo pelos Correios. O livro, “O filho do Brasil” de Denise Paraná, eu já esperava. Primeira edição, do ano de 1996, usado, mas bem conservado, trazia nas páginas um pouco amareladas pelo tempo pequenas marcas de alguém que não conheci. Logo ali no começo uma dedicatória: “Para a querida Eliane Gonçalves com carinho do Lula. Sem medo de ser feliz”, datado em 12 de dezembro daquele ano, sem indicar lugar.

Sorri instantaneamente. Não era apenas mais uma dedicatória. Trazia a assinatura do próprio biografado. Pensei no porque a pessoa teria se desfeito do livro. Pensei se conhecia o personagem ou se participara de um momento de autógrafo. Será que era sua eleitora? Será que se decepcionou? Teria sido presente de alguém? Teria conhecimento de que o livro andava pelo Brasil parando no interior baiano? Muitas perguntas, nenhuma resposta e aquela mesma sensação que tinha ao folhear as obras no Cantinho.


Esta não tinha sido a primeiro vez. Um presente dentro de um presente, ainda que não destinadas a mim, as dedicatórias falam de maneira a ressignificar a obra, a ampliar seu sentido, ao menos quando as leio. “Uma duas”, romance de estreia de Eliane Brum, me foi dado por uma amiga com um carinho especial. A poesia da escrita da autora transbordando na dedicatória à moça que, sabe-se lá porque, desfez-se do livro. De São Bento a Juazeiro. “Para Izabel de Oliveira, uma história de nossos oceanos profundos, lá onde vivem os peixes cegos. Eliane Brum”. Foi tão para mim que veio até mim. E a felicidade por isso é indescritível.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O dia seguinte

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Eram sorrisos de canto de rosto. Eram gargalhadas. Era a voz acuada que tentava se fazer ouvir em meio a urros de prazer e satisfação. Foi o cinismo estampado no rosto. A hipocrisia desnuda para milhões em rede nacional. Foi a propina, o dinheiro, o poder. E se seguiram os “sins”, tão torcidos, tão queridos por muitos que têm o xingamento como único argumento. Era “pelo fim da oligarquia do PT”. Ou pelo futuro dos filhos, dos netos, pelos 40 anos de mandato. E pela continuidade das famílias coronelescas que se perpetuam mandando, enriquecendo, mentindo, manipulando, subtraindo, devastando, destruindo. Mas que seguem impunes. Porque são a lei, porque são a justiça. Porque são injustos.

Era a ironia, a mudança de opinião sem qualquer opinião formada. Era a conveniência. Se seguia um a um, em nome da mulher, em nome do pai ladrão, em nome de um presidente réu, comprovadamente corrupto. Mas era contra a corrupção. Contra todas essas pessoas que se encheram de direitos alimentados pelo Bolsa Família. Foi a Bahia, quase uma exceção, execrada nas redes sociais que destilaram seus preconceitos anonimamente, porque, como os deputados, reconhecem sua impunidade. Era pela igreja, igreja instituição, que não paga impostos, que rende dinheiro, que rende reconhecimento, que aliena, que prende, domina, intimida, convence e manda.

Era a falta de educação. Tudo em nome do bem estar do MEU povo brasileiro. “Meu”, “minha”, pronomes que deixavam claras as intenções. E as pedaladas foram virando coadjuvantes. E os decretos foram virando coadjuvantes. Como são desde o início, pretextos apenas para a realização de uma eleição indireta, tal qual lá naqueles tempos sombrios que um deputado desprezível fez questão de exaltar. Era a baixaria, a sem-vergonhice de pessoas eleitas com salários absurdos, com regalias desnecessárias, que pisam diariamente na Constituição. Que mataram ao menos uma parte do país de vergonha, ao ver todo aquele circo em nome de uma nação.

São as pessoas decepcionadas porque pensavam que a presidente já não estaria no cargo. São as pessoas torcendo sem sequer saber o porque. Porque dizem que um lado é o bom e o outro o mau. Que um lado é honesto e o outro corrupto. Que um lado é o mocinho e outro o bandido. Que na segunda-feira tudo estará no seu lugar como antes. Antes? Que antes?


Sim, estou triste. Mas não é tristeza simplesmente, é uma indignação que machuca. Hoje, depois deste dia 17 de abril, ainda custo acreditar que a política do país se resumiu a um maniqueísmo medieval, rezado e gritado aos quatro cantos em nome de Deus e da família. Estou triste e temerosa. Que o dia seguinte não seja longo demais.  

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre cartas e as palavras que ficam


Letras bonitas escritas com um zelo não mais visto em papéis que ficaram para contar histórias. O carinho em palavras ditas sem o pudor característico das relações de um tempo que se foi.

Há alguns anos descobri com emoção uma porção de cartas cuidadosamente guardadas. Meu avô e minha mãe, em correspondência através dos anos em que não vivi, falando amenidades, contando pormenores da vida que hoje, talvez, por nos habituarmos a não olhar tanto para os lados, por não enxergarmos tanto os detalhes, passariam despercebidos. 

Meu avô era de um pragmatismo admirável. Uma organização que, apesar de ter convivido pouco tempo com ele, nunca esqueci. E eis que ele guardou cada carta, as que ele enviava, copiadas ou datilografadas duas vezes, e as respostas de minha mãe. Sem saber, ou bem ciente de que com o gesto formava um memorial de valor inestimável (o que mais acredito), ele continuou a me contar histórias que se perderiam com a partida de ambos.

Assim fui conhecendo um pouco mais dos dois, pai e filha, avô e mãe, do que gostavam, do que falavam, do amor pela família, explícito nos caminhos ditados, nos conselhos, nas ações relatadas frequentemente e com tanto esmero. Dos silêncios que doíam, da vontade de estar perto, do pensamento que não se separava um instante.

Assim soube coisas corriqueiras, que hoje nem existem mais. Das viagens a vapor, da “vida monótona” para o homem de ideias avançadas demais para a Remanso das décadas de 1960-70. Das distâncias, das saudades, das palavras corridas pela pressa de mandar notícias pelo ônibus “que vai sair daqui a cinco minutos”. Das idas e vindas entre Remanso-Juazeiro-Salvador e das cartas que chegavam acompanhadas de bolachas, tecidos, linhas e sabão em pó. Novidades que demoravam a surgir na velha cidade afogada.


Era uma vida de comunicações difíceis, onde falar ao telefone era novidade para ser celebrada, em que toda toda a família se reunia para falar por rádio-amador de um cabo do Exército para ter notícias do irmão distante. Vida de novidades contadas pelas linhas econômicas dos telegramas, que traziam e levavam notícias boas e notícias más, num português caprichoso, cheio de precisões.

Eram momentos de preocupações pelas dificuldades impostas por um governo autoritário. “Fiquei ciente do que ocorre a respeito da área de interesse da segurança nacional. Eles são aparentemente fortes, enquanto os comandantes, que os combatem, são na realidade, muito fracos”. De preocupações pela construção da barragem de Sobradinho, que terminaria forçando a mudança de
sede de Remanso anos mais tarde, provocando debates que passaram longe da história oficial. “Estou remetendo estas cartas da Assembleia, sobre a rejeição do nome da cidade do Rosário. Ficará o mesmo nome de Remanso”.

Assim passei a admirar uma amizade expressa nas assinaturas: “de seu velho pai e amigo” ou “você é o pai melhor do mundo!”. A admirar a cumplicidade, o apoio, a confiança que um tinha no outro. “Você me faz falta de filha refúgio; falta que suas missivas atenuam”. Admirar o alto astral e a descontração da mulher que insistia em desejar, acima de qualquer coisa, a felicidade. “Que estejam como deixei: calmos e alegres. Evitem 'foles'”... Do desprendimento e despreocupação com o achar alheio. “Do juiz não se ouviu falar mais nada. Deixe-o de lado e mande-o para o inferno”.

Adentrei a madrugada a ler o primeiro bloco de cartas, que guardo como um tesouro particular e que tanto protelei para tomar conhecimento de seu conteúdo. Arrancaram-me sorrisos... e lágrimas. Ficou a satisfação em poder conhecê-los um pouco mais por eles mesmos, um pouco mais sobre mim mesma. Ficou o desejo de mais.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O melhor lugar do mundo


Era só entrar pelo caminho de terra, em algum lugar no interior de Remanso, e seguir a estrada marrom de declives e pedregulhos. Era só ir abrindo as cancelas e decidindo instintivamente entre as bifurcações ou se guiar por aquele pé de mandacaru, um entre tantos, mas que se diferenciava sabe-se lá como. Era só passar por aquela árvore retorcida, aquela outra de galhos caídos e por aquela de folhas já secas, que ainda tentava resistir ao implacável sol. E também por um barco, estancado na aridez que se repetia cotidianamente, fazendo de ancoradouro o quintal da casa. Era o caminho das Larges, lugar até então perdido em minhas lembranças infantis.

Foto: Emerson Rocha

Não tinha mais os coqueiros da entrada. Nem o cheiro da água que ia adocicando a estrada. A água sumiu, pra lá depois de onde os olhos já nem alcançam mais e os coqueiros foram embora com ela. Restou o imenso cajueiro abraçando a casa que um dia pareceu enorme. E o senhor que já não se reconhece fora dali, aquele lugar no meio do nada, como dizem tantos. “O que é que eu vou fazer na cidade?”, ouvi meu tio, único irmão vivo de minha avó paterna, perguntar. Ele, 82 anos, morador solitário das Larges. “O que eu vou fazer na cidade?”, a pergunta ecoando, me cobrando explicações.

A vida dele é ali, lugar sem energia elétrica, sem telefone, sem internet. Bodes pastando extensivamente, galinhas de estimação. Raiar e por do sol. Mundo que se agiganta pela simplicidade, pelo passar arrastado do tempo sem relógio. O que fazer fora dali, naquela desordem que confunde, naquela bagunça que sufoca, num vai e vem desenfreado e tantas vezes sem destino? Ali onde bicho, homem, planta, terra, água se entendem e se respeitam, se unem contra as adversidades, se completam num ciclo hoje tão ameaçado.

O calor fazia desenhos no ar, enquanto eu caminhava mato adentro tentando entender. Meu tio, alheio a meus questionamentos, sorria soberano certo de que está no melhor lugar do mundo.  

terça-feira, 7 de abril de 2015

Recomeço

Eu tinha quinze anos quando me senti livre pela primeira vez. Era uma noite de outubro e lembro que fiquei horas no quarto, sozinha, a música alta eternizando o momento. Vinha de dias difíceis e aquilo soou como uma recompensa. Deixei a madrugada chegar lenta, tentando prender aquela sensação em mim, sem saber que seria impossível esquecê-la.

Somos responsáveis por nossas escolhas, pelos caminhos que temos que seguir. Naquele dia eu tinha consciência disso. Como hoje. Anos depois consigo reencontrar aquela mesma garota sonhadora que lutava contra tanto de si mesma para manter-se viva. Que lutava por tanto de si mesma para viver seu próprio caminho.

Coragem nunca foi uma palavra frequente em meu vocabulário. Até perceber que tinha deixado aquela garota morrer justamente por falta dela, a tal coragem. Viver é muito mais que cumprir protocolo, seguir a cartilha que se determinou sabe-se lá como e por quem. Eu não quero cumprir roteiro que nem sequer tive participação. Não vale a pena. 

Já há algum tempo buscava essa coragem para tirar de mim o que tanto me maltratava. Foram dias, como dizia minha avó, de uma "coisa ruim dentro de mim", que não conseguia fazer entender, que médico nenhum conseguia explicar. Coração acelerado, como se quisesse se libertar de mim. "Você está bem, é coisa de sua cabeça". Não, não é. Nada que te faça sentir mal é simplesmente "coisa de sua cabeça". É algo real e deve ser combatido, enfrentado, evitado.

Eu sempre fui muito os outros. O que vão pensar, o que vão dizer, o que vão achar. Mas a verdade é que, nesse período, apesar de todo o apoio e boa vontade de quem esperava aprovação, ninguém conseguiu despertar essa coragem. Ela dependia unicamente de mim, assim como as escolhas, as consequências. A "coisa ruim" era minha e ninguém jamais iria compreendê-la.

Voltei a sentir a garota tentando voltar a respirar. Espero não deixá-la ir embora novamente, que sempre esteja comigo me ensinando a ter coragem e a aprendendo a recomeçar. Não é fácil. Mas pior é acordar com vontade de chorar por ter se anulado diante de suas próprias fraquezas.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Das memórias submersas


“Qual é a graça em ficar olhando para um monte de tijolo velho?” A pergunta saiu de repente de meu irmão mais novo e me assustou. Depois de quase sete anos eu retornava à velha Remanso, desnuda novamente pela seca do rio São Francisco. A baixa do lago de Sobradinho deixava mais uma vez à mostra os restos físicos da cidade alagada após a construção da hidroelétrica.

Havia menos casas em pé e vários sinais da presença humana recente, possibilitada pela seca prolongada. Plantação, gado pastando no que era para ser o curso do lago. Lixo, muito lixo, de garrafas e embalagens de comida a preservativos, espalhados sobre as paredes caídas, por entre os tijolos do que um dia foi um mercado. A rampa do antigo cais, ancoradouro dos vapores que movimentavam a vida local, agora era estacionamento de carros, cujos donos chegavam ali para curtir as barracas de bebidas que acompanharam o retrocesso das águas.

Uma pequena volta pelo lugar e as marcas de trator deixavam evidente que a cidade velha estava morrendo mais uma vez. Como se quisessem juntar todos os cacos em um amontoado de restos e deixar ali para que a água, quando vier de novo, se encarregue de levá-las para sempre. Era claro que a falta de interesse infelizmente não se limitava ao garoto que ignorava minhas explicações.

Fotos: Emerson Rocha
“Quem quer ver isso? Uma escada, grande coisa!”, dizia ele insensível ao se deparar com partes semierguidas de um casarão. Enquanto eu, pele arrepiada, olhos marejados, reconstruía um passado que não vivi, me emocionava com o recontar das histórias repetidas tantas vezes. De longe, observei meu pai a contemplar o rio, debruçado no que foi o ponto principal da cidade, ponto de encontro, de brincadeiras, de comércio, de brigas, de travessuras. Ele parava olhando o passado, sorrindo feito bobo, relembrando como se revivesse.

O sentimento que ficou foi de que o que se passou até que restassem apenas aqueles tijolos velhos vai ficando enterrado, esquecido juntamente com as ruínas. A romaria em busca das lembranças afogadas vai cessando com o tempo. Os filhos da nova Remanso já não parecem se reconhecer nas memórias submersas.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Eu não quero tolerância

Eu sou nordestina. Não preciso ser tolerada por causa de minha origem. “Nordestino”. A palavra que carrega em si uma carga histórica de sentimentos muito difíceis de serem diluídos, de serem sequer compreendidos. Em qual outra região do Brasil sua população é definida assim? Por que quem nasce em São Paulo ou no Rio de Janeiro não é chamado de “sudestino”? A palavra sequer aparece como correta no vocabulário do Word.

Eu sou baiana, nascida em Salvador, juazeirense de coração, remansense de raiz. Apenas um pedacinho do Nordeste, vastidão de povos, culturas, riquezas. E, com certeza, não preciso ser tolerada por causa disso.

“Lá no Nordeste é assim que funciona. O povo entrega o título de eleitor e votam por eles”. Ouvi isso de um taxista no Rio de Janeiro, recentemente, sobre as eleições presidenciais que se aproximam. Perplexa. Uma afirmação que poderia ser encaixada em alguma conversa do século XIX. Incrédula. Existem pessoas que realmente pensam assim.

“É verdade. Eu vi no jornal”, garantia o senhor de meia idade, pesado de conceitos pré-fabricados, dos quais ele não fazia qualquer questão de rever ou de reconsiderar. Triste. De fato, ainda existem pessoas que pensam que estamos estacionados no tempo, encurralados em um grande feudo com senhores da terra, atrasando o desenvolvimento do país. Seria isso o Nordeste para alguns.

E continuou. “Conheci um cearense branco, até bem apessoado. Tão branco, nem parecia cearense...”. Era realmente inacreditável. O senhor falava com uma naturalidade que espantava. Palavras atiradas com a visível intenção de atingir os quatro “nordestinos” que seguiam viagem em seu táxi. “Você precisa conhecer o Nordeste”, dissemos. Precisa, sim. Muitas pessoas deveriam tirar o antolhos e conhecer melhor seu país, saber mais de si mesmo e deixar de tanta arrogância. Seríamos melhores assim.

Tolerância. Segundo o dicionário é o termo que define o grau de aceitação de determinado elemento que contraria a regra. Não ouvimos mais o que viria da metralhadora sentada em frente ao volante. Não precisávamos, não temos que aceitar tanta ignorância, não temos que ser tolerados em nosso próprio país, em qualquer lugar que seja de seu território.


A bordo - relatos de uma viajante em início de estrada (Parte III) - Eu, depois de mim



Havia me perdido de mim. Entre os tantos caminhos que nos são ofertados ao longo da jornada, por vezes escolhemos o que nos desconstrói. Não como se reinventar, mas como nadar contra a maré. Eu, destemida, audaciosa, segura de minhas convicções, vi os adjetivos serem levados por uma corrente que não consegui acompanhar. E fui então percebendo a minha falta de habilidade com a vida real.

Há cerca de dez anos, em uma auto-entrevista, tracei um perfil do que seria, ou do que imaginava ser. Relendo, ainda identifico muito do eu daquele tempo em mim hoje. “Quero tudo ao mesmo tempo e ao mesmo tempo não quero tudo, quero só o suficiente pra me fazer sentir bem. (…) Prezo pelo lado simples da vida porque este já é complicado demais”. Naquela época eu não tinha ideia desse “complicado” e de como na maioria das vezes tornamos tudo mais difícil por não sabermos lidar com nossos próprios sentimentos, por não saber compreendê-los ou transformá-los em ação.

Eu ainda não sei. Mas adquiri certa consciência do quanto isso é importante e do quanto sair de si mesma e da imutabilidade de se ser ajuda a saber. Viajei. Conhecer o que se vê apenas em publicações ou nas imagens retorcidas da televisão nos dá uma dimensão do que somos, do que desejamos ser. Sentir lugares diferentes, pessoas com pensamentos tão diversos, ritmos, sons, cheiros, paisagens que não estão presentes em nosso cotidiano nos faz ter uma visão mais ampla de nós mesmos. Nunca voltamos igual, por menos perceptível que seja.

Ainda tento sair da contra-corrente. Ainda tenho a sensação de que nado sem sair do lugar, mesmo sabendo que aos poucos estou retomando o meu caminho. Desta vez sem tanta euforia e sem tanta pressa de me definir em palavras, de me precisar em propriedades, tamanho e peso, como uma embalagem de um produto qualquer. 


terça-feira, 26 de agosto de 2014

"Sim, o rio sabe"


Um dia ali foi caminho de barco. Água que passava correndo trazendo e levando notícias, deixando sentimentos. Um dia ali foi morada de peixe grande, que tornava ainda mais rica a vida de quem dele se alimentava.

Rio que em suas curvas desenhou estradas, encorajou o homem a fincar raízes, mostrou que viver era serpentear a sua liberdade por entre obstáculos e se lançar de peito aberto sobre o mar. Sempre corrente, vivo, soberano. Esse tempo não é distante, mas pode tornar-se apenas lembrança, cantada pela saudade e pela realidade que abate dia a dia o Velho Chico.

Há menos de um ano, o ponto mostrado pela fotografia acima era ancoradouro das barcas que fazem a travessia Juazeiro-Petrolina, hoje tomado pelas baronesas que se espalham rio a fora, sufocando, indicando que a sujeira humana aos poucos mata o que se tem de mais precioso.

Há cerca de cinco anos, o local onde se deu a tentativa de construção de uma estrutura para ancoragem das embarcações era coberto pela água, que, com as chuvas chegava a beirar a orla das cidades. Hoje, o volume do rio baixa diariamente, apequenando as possibilidades, apagando-se paradoxalmente para alimentar a energia elétrica.

O rio, em alguns lugares, já não canta. Explorado para além de sua capacidade, resiste, minguado, choroso, clamando para que o salvem de sua morte anunciada.     

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E se fosse seu último dia? (Final)

Dei conta de mim depois de sabe-se lá quanto tempo. Não fazia mais sentido algum contá-lo. Algum dia fez? Pensei, pensei. Percebi o quanto era maniado em quantificar as coisas. Calorias, distâncias, inteligência, força, relações, desejos, vontades, amor, ódio, saudade. E o tanto que deixava de ver da vida enquanto colocava em números o que muitas vezes só é necessário sentir. E o tanto de humanidade que se perde em atos que vão se tornando mecânicos, mensuráveis.

Lembrei de certo dia quando voltava para casa. Sentado à espera do ônibus, vi pessoas caminhando. Pareciam ir a lugar algum, hipnotizadas pela pressa do dia que vai se acabando e ainda falta muito a fazer. Vi pessoas passando nas janelinhas dos coletivos. Olhares congelados, mirando o nada, sem brilho. O entardecer tentava chamar atenção, por entre os prédios da cidade. O céu mudando lentamente de cor e eu esperava o ônibus sem pensar. Assim como milhares de pessoas, que depois se espremeriam no espaço mínimo, cansadas do trabalho de dia inteiro, rezando para o motorista não parar no próximo ponto e abarrotar ainda mais de gente o momento que parecia eterno. Depois todos desceriam onde tinham que descer e seguiriam para fazer o que tinham de fazer.  

Vi que não somente eu poderia fazer do último dia o melhor dos dias. Vi que uma porção de gente não hesitaria diante da pergunta “você gostaria de mudar algo em sua vida?”. E mesmo assim permanece. Tive uma pequena ideia da multidão que diariamente reprime seus sonhos em nome de uma vida pragmática demais, burocrática demais, estática demais. Pessoas que deixam de ouvir a si mesmo, de ver além do que sempre é dito pra ser visto, que ignoram suas fantasias, por mais tolas que elas sejam, ou que aparentem ser. Pessoas que têm medo de transpor a ordem, de fazer diferente e que, ao se depararem com alguém com o pé fora do caminho, fazem de tudo para que as coisas voltem a ser como antes, para que não se perca as rédeas. Quem dita a ordem? Por que esta deve ser a ordem?

Nos primeiros momentos nos quais entendi que não poderia mais fazer nada para mudar meu destino, imutabilidade dada em vida pela minha inércia e já definitiva pela morte repentina, desejei ter feito diferente, lamentei pelos que ainda podem e não o fazem. Aqui, onde deixo de existir para tanta gente, sigo com as lembranças do que não fiz e do que poderia ter sido. Uma lição que aprendi tarde demais. 

E se fosse seu último dia (Parte I)

terça-feira, 29 de julho de 2014

"O que sente?"

Quem já não se deparou com os mal-estares da alma? E quem já não procurou ajuda para saná-los? Aquele homem não era só mais um, era alguém que precisava desabafar o que tanto lhe incomodava por dias a fio.

Interior de uma cidadezinha pequena já no nome. Seguiu as ruas de terra na esperança de o médico tirar-lhe as dúvidas. Espera impaciente pelo encontro que talvez mudasse a vida, passava o tempo lentamente contando as horas pelo sol que ficava cada vez mais alto.

“O senhor, por favor, venha por aqui”. Encontrava-se, depois de sabe lá quanto tempo, com a resposta para as suas perguntas mais viscerais.   

“O que sente?”, perguntou o médico, em seu ofício cotidiano de entrevistador.  

“Ó, doutor. É uma alegria que sobe e quando chega na cabeça só me vem o tempo de menino. E isso só acontece quando tem lua cheia, desde que um piolho de cobra picou meu dedão do pé”.

E o silêncio pairou pelo consultório, um ar risível no ambiente. E nada que a medicina mais moderna pudesse explicar, nada que os estudiosos mais renomados pudessem dizer.

“Se é alegria, melhor não mexer”, concluiu o médico no alto de sua sapiência. E o rapaz saiu de lá, satisfeito por seu problema ser o que tanta gente procura. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O que foi...


Era apenas um corredor por onde passavam fantasmas,
por onde caminhavam as lembranças,
depois de adormecidas as saudades.
Eram as janelas entristecidas
por terem os olhos fechados para o tempo que veio,
com tons e cores que sequer foram vistos.
Eram os móveis empoeirados,
carregados de histórias não mais contadas,
ignorados em seus defeitos nunca reparados,
acumulando pela simples função de acumular.
Eram as portas fechadas para o mundo.
Era o mundo fechado em si mesmo.
Era a água interrompida,
a luz acostumada à escuridão.
Era o jardim somente um punhado de terra seca,
eram as paredes reflexos da solidão.
Era o entardecer febril,
de passos trôpegos pelo vazio.
Era o silêncio, apenas.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Não precisa dizer nada

Não precisa dizer nada, apenas ouvir. Tem tanta gente disposta a falar, procurando uma brecha no tempo alheio para colocar pra fora sua história. Pode ser apenas mais uma, mas é a vida de alguém. Por mais que não pareça, única.

Ela chegou discreta em meio ao vai e vem de pessoas que se amontoavam na agência bancária, indiferentes a tanto além do passar do tempo. Alta, magra, olhos pesados, mãos querendo falar. Olhou em volta rapidamente, sentou-se ao meu lado, a existência parecendo desafiar a vida.

- Não tem dinheiro nos caixas lá fora. – As mãos falavam esperando atenção. Assenti com a cabeça, tirei o fone do ouvido, o gesto que talvez esperasse.

- Ia tirar um dinheiro porque me enganaram. – Eu apenas ouvia, olhar fixo na transparência da córnea amarelada. Sobre a bolsa a senha que indicava atendimento prioritário.

- Estou com um tumor na cabeça, o médico me disse ontem. Vou ter que operar, mas preciso tomar um remédio antes. Custa setecentos reais. Vim tirar os mil que tenho na poupança.
A senhora, talvez nem tão senhora assim, parecia humilde. Se comportava com uma fragilidade de quem vai quebrar a qualquer momento.

- Tem três anos que eu sinto isso, mas o médico me dizia que era coisa da minha cabeça. Não uma coisa que existia dentro dela, mas uma coisa que ela criava. Fiquei esse tempo todo tomando remédios que acho que nunca deveria ter tomado.

Apesar de toda complacência nas palavras, tinha raiva na voz. E uma sobriedade tão forte, que parecia a impedir de sorrir. Ela não sorriu.

- Esses dias passei mal. Fui levar minha filha na UPA pra fazer um exame e desmaiei lá. Acho que foi porque comi muito pão com queijo cremoso. Por mim eu só comeria pão com queijo cremoso. (pausa longa) Eu disse ao médico que ele ia pagar pelo erro dele, disse que ia processar, porque o tumor tá grande e ele não tinha visto isso. Aí ele me disse pra levar a nota do remédio, acho que vai me reembolsar. Minha mãe me perguntou se eu não tinha medo dele me matar na mesa de cirurgia. E eu respondi, mãe, eu já estou morta.

A campainha soou. P34, era a sua senha. Pegou os mil reais, me mostrou que havia conseguido sacar e foi embora. Pela primeira vez sorriu, de canto, desajeitado como quem não tem costume. Talvez pensando no pão com queijo cremoso, felicidade de instante. Não, ela não estava morta. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

E se fosse seu último dia? (Parte I)

O que você faria se hoje fosse seu último dia de vida? Talvez não fosse a melhor maneira de relacionar-se com o mundo, sabendo que no dia seguinte você não fará mais parte dele, a não ser como pó, lembranças e, em alguns casos, saudades. Eu não sabia que ontem era meu último dia.

Acordei cedo, mais do que normalmente o fazia. Acho que a vida quis dispor a mim mais alguns minutos para que pudesse vê-la, mas não foi isso que eu entendi. Na verdade senti raiva, queria continuar dormindo, ainda me sentia cansado. Mas não consegui mais.

Levantei mal-humorado, fui ao banheiro, lavei o rosto. “Cara feia”, pensei olhando para o espelho. Poderia ter sorrido naquele momento, diante de um pensamento tão tosco e de uma imagem idem. Mas não sorri, do que me arrependo. Foi um sorriso a menos em minha vida. Segui levando no rosto um semblante pseudo-austero, rabugento, quase infeliz. Fui tomar café. Quando se pensa em morte e sabe-se que antes dela haverá um último momento, imagina-se que tudo nesse último momento será da melhor forma possível. Como em uma despedida de solteiro. Comigo não era diferente. Imaginei que minha última refeição matinal seria como naqueles filmes em que se baba frente à tv e que, em certos momentos, você jura poder sentir o gosto das iguarias. Tudo que achei foi um saco de pães dormidos. Poderia ter ido à padaria e comprar pães novos, ou ainda aqueles biscoitos refinados que há tempos paquerava no balcão, mas que, devido ao preço, nunca tive coragem de comprar. Eles pareciam muito bons de fato, mas não tive como constatar isso. Contentei-me com os pães duros e secos. Abri a geladeira e o que vi foi uma caixa de leite aberta, meia dúzia de laranjas já quase apodrecidas e água. Poderia ter feito um suco. Fiquei com preguiça e acabei comendo só aquilo que um dia tinha sido um pão.

Andei pela casa ainda sustentando no rosto a raiva de ter acordado cedo. Sentia-me o próprio Casmurro. Sentei na poltrona, fiquei horas sem fazer nada. Não percebi como estava o céu, se chovia ou se brilhava aquele sol costumeiro. Não senti cheiro algum, não ouvi música, não falei com ninguém. Acho que sequer pensei. Me anulei por um instante, mal sabendo que em poucos instantes estaria anulado para sempre.

Quando resolvi levantar e dar algum rumo àquele bendito dia, o relógio já marcava 10:37. Fui ao banheiro novamente, tomei um banho apressado. Pressa para que? Sentia-me importante quando tomava banho rápido. Parece que todas as pessoas importantes, que têm reuniões de negócios com outras pessoas que carregam maletas e por isso também são importantes, tomam banho rápido para chegar ao destino no horário. Eu não era importante, não tinha uma maleta nem horário marcado para reunião de negócios. Mas imaginava que um dia teria tudo isso e já ia treinando.

Saí do banho, vesti a roupa que vestia quase todos os dias. Uma calça jeans, a camisa amarela com um desenho que nunca entendi o que era na frente. Já estava até meio desbotada. Vi minha camisa nova balançando no cabide. Não cheguei a usá-la. Estava esperando uma ocasião especial, mas acho que esperei demais. Abri a porta resmungando porque ela emitia um ruído insuportável, um rangido que era quase uma canção brega. Poderia ter resolvido com um algodão banhado a óleo de cozinha. Mas acho que preferia perder meu tempo reclamando toda vez que a abrisse.

Andei pelas calçadas empunhando minha maleta imaginária, olhando para as pessoas com meu ar de superioridade que me afastava de uma grande maioria. Me sentia melhor do que os outros, por que haveria de esconder isso? Sou bonito e um dia serei um empresário de sucesso, era o que pensava quando via aquele povo feio que tinha a honra de dividir a calçada comigo. Quanta pretensão tola! Hoje sou pó, lembranças e nem sei se saudades. E eles continuam andando pela calçada, agora honrados sem a minha presença estúpida e prepotente.

O destino era a universidade. Cursava o sétimo período de administração de empresas. Queria fazer economia também, mas o tempo passou e eu não tive mais tempo. As aulas começavam 9h, mas geralmente eu chegava às 11h ou 11h30 dependendo da aula do dia. Achava que sabia de tudo, que o conhecimento que me vendiam por um preço altíssimo era desnecessário frente ao meu dom. E por que continuava? Vontade de aparecer e exibir o diploma na sala da presidência de minha empresa. Nunca sequer vendi uma bala. 

Cheguei, entrei na sala, sentei na última cadeira da segunda fila da esquerda para direita, como fazia todos os dias. Quando se acostuma a uma coisa é difícil mudar. Dá sempre a sensação de que tudo vai passar a dar errado. Era exatamente como acontecia com o tal lugar. Nunca ousei mudar. As horas passavam lentas e eu me agoniava com aquele murmúrio que vinha do professor. Ás vezes eles riam e eu nunca ouvia a piada. Sabia que não haveria graça.

Tinha alguns amigos naquela faculdade. Uns caras que estudavam comigo, uns de outros períodos ou de outros cursos. Não tinha namorada, mas já havia ficado com quase todas as meninas dali. Nunca dei valor a nenhuma delas, porque as achava fáceis demais, interesseiras demais, arrogantes demais. Talvez se espelhassem em mim. Morri sem conhecer o amor.

A aula ia até às 13h e eu esperava o momento de registrar minha presença para ir embora. Naquele dia, quando saí era 12:46. Fui para o restaurante da faculdade, comi o de sempre, um punhado de arroz, macarrão, batata frita, frango e uma coca-cola com gelo e limão. Não foi digno de último almoço, mas estava realmente saboroso. Só faltou a sobremesa. Voltei para casa e dormi a tarde inteira. Poderia ter ido ver o mar, ou mesmo ter aproveitado alguns instantes a mais ao lado de meus amigos. Poderia ter rido a tarde inteira de besteiras que nos fazem momentaneamente felizes. Poderia ter ligado para meus pais e ter dito o quanto os amava e o quanto me fazia falta tê-los por perto. Mas ao invés disso recolhi a minha insignificância numa cama. Dormi pesado, sem sonhos.